Nomes em português das aves brasileiras

 

A questão da padronização de nomes ou indicação de "nomes gerais"

Devido à grande extensão territorial do Brasil e da diversidade de povos que o habitam ou habitaram, muitos nomes populares são atribuídos a nossas espécies de aves. Uma mesma espécie pode ter nomes diferentes em diferentes regiões. Da mesma forma, um mesmo nome pode referir-se a diversas espécies. Alguns autores propuseram a "padronização" dos nomes populares de nossas espécies, dando nomes também àquelas que não dispunham de nomes populares, a exemplo do que foi feito em outros países. Os ornitólogos Edwin O. Willis & Yoshica Oniki (1991), após consulta à comunidade ornitológica, atribuíram às espécies brasileiras os chamados "nomes gerais" que seriam os nomes preferenciais a serem utilizados. Mas esta é uma questão controvertida. Há opiniões tão radicais que defendem que os ornitólogos e estudiosos das aves não deveriam atribuir nomes a espécies que não tivessem nomes atribuídos pelo povo em geral. Outros defendem que não se deve padronizar nomes, mas utilizá-los de forma livre, cada um fazendo sua própria escolha. A literatura a respeito desse assunto, já mostra as divergências de opiniões, pelos argumentos dos diferentes autores:

A favor da padronização

Os nomes populares não mudam nunca, ao contrário dos nomes científicos. (Andrade 1982)

 

Um mesmo nome é usado em regiões diversas para designar diferentes espécies. (Andrade 1982)

 

Pessoas das cidades desconhecem os nomes usados no interior, dificultando o reconhecimento das diversas espécies. (Andrade 1982)

 

Diversas espécies menos conhecidas não têm denominação popular, sendo chamados de "passarinho à toa" ou coletivamente de "pichororés", por exemplo. (Andrade 1982)

 

A atribuição de nomes populares fixos para as espécies de aves contribuiria para que a população tivesse um conhecimento melhor de nossa avifauna. Há uma demanda natural das pessoas em conhecerem o nome popular das espécies. (Figueiredo, Bol. CEO 1)

 

O povo tem uma dificuldade muito grande de assimilar nomes científicos. (Figueiredo, Bol. CEO 1)

 

A padronização estimulará o uso destes nomes em publicações, museus, jornais, revistas, livros didáticos, filmes, etc, fazendo com que, com o tempo, estes nomes se incorporem definitivamente à cultura popular. (Figueiredo, Bol. CEO 1)

 

A lista de nomes padronizados deve ser elaborada com base numa ampla participação das pessoas interessadas nesta questão. (Figueiredo, Bol. CEO 1)

 

Deve basear-se em completo levantamento bibliográfico e em pesquisas junto às comunidades. (Figueiredo, Bol. CEO 1)

A padronização de nomes populares já é prática comum em países como os Estados Unidos, onde a AOU já faz isto há muitos anos. (Willis & Oniki 1991)

Contra a padronização

A padronização poderá implicar em não aceitar nomes usados pelo povo, por estarem errados do ponto de vista da biologia da espécie. Exemplo: beija-flor-da-mata-virgem (Galbulidae). (Figueiredo, Bol. CEO 1).

 

A padronização excluirá inevitavelmente alguns nomes consagrados regionalmente. (Figueiredo, Bol. CEO 1).

 

A denominação regional é reflexo da riqueza de linguagem e da diversidade das culturas regionais, o que deve ser preservado. (Höfling, Bol. CEO 3)

 

Nomes padronizados não serão reconhecidos e usados pelas pessoas das diversas regiões que já usam nomes regionais. (Höfling, Bol. CEO 3)

 

Critérios para a adoção de nomes populares padronizados são sempre incompatíveis com a dinâmica e com a estrutura da linguagem popular. Vide a adoção de nomes traduzidos do inglês ou a eliminação de nomes considerados pejorativos. (Höfling, Bol. CEO 3)

 

Padronização de nomes populares pode estimular a publicação de trabalhos onde constam somente estes nomes, como se vê às vezes em países onde os nomes populares são padronizados. (Höfling, Bol. CEO 3)

 

A padronização pode eliminar a memória linguística. (Höfling, Bol. CEO 3)


"...o nome comum das aves não pode ganhar a camisa de força que tentaram colocar a partir da década de 30 nos Estados Unidos, algo que se espalhou no mundo. Pela dificuldade de algumas pessoas de lá com o nome científico resolveram popularizar através de nomes comuns, como vocês sabem. E enveredaram pela padronização desses nomes. O Mac Donalds ornitológico. Esqueceram que a padronização tinha nascido mais de dois séculos antes com o próprio nome científico. Pior é isso ser repetido em outros cantos do mundo e haver ornitólogos profissionais americanos e canadenses com dificuldades para saber os nomes científicos das espécies com que muitas vezes trabalham. Até hoje causa-me espanto uma iniciativa de padronização dos nomes em espanhol na América Latina. Como explicar para um mexicano o inhambu e como fazer o argentino aceitar nomes de base cultural peruana. Ou transferindo para cá, já que nosso país corresponde à metade do continente sulamericano, como fazer um gaúcho chamar uma ave pelo nome comum nordestino, se esse é o padrão, e vice-versa. É o atropelo de nossa herança cultural e acaba dificultando o nobre uso das aves locais em programas de divulgação, difusão e educação ambiental para a mobilização das forças da sociedade na proteção ou recomposição de ambientes." (Paulo de Tarso Zuquim Antas)

 

A despeito dessa controvérsia, os nomes "gerais" são utilizados em diferentes oportunidades. Quando Sick, por exemplo, em sua Ornitologia Brasileira, destacou um nome popular entre outros, para fazê-lo figurar no início do verbete de cada espécie, priorizou-se de alguma forma. Publicações de abrangência nacional, principalmente as de caráter técnico, terão, na maior parte das vezes, que optar por um nome apenas para cada espécie e esta seria exatamente a oportunidade para o uso dos chamados nomes gerais. Esta opção não deve impedir, por outro lado, que os diversos outros nomes populares de cada uma das espécies continuem a ser usados em situações específicas, como em obras literárias e outras modalidades de produção cultural, linguística ou sociológica. 

Recomendações

 

O registro dos nomes populares utilizados nas diversas regiões e localidades é uma atividade desejável, principalmente por não ser uma atividade frequente em nosso meio. É recomendável que estes estudos sejam feitos levando-se em conta a consistência das denominações utilizadas, ou seja, deve-se verificar se aquele uso é difundido na comunidade em questão e não de conhecimento de uma pessoa apenas. É frequente constatar-se o fato de que muitos referem nomes que percebe-se foi com certeza um mal entendido quando ouviu de um terceiro o nome da ave em questão, dando origem a uma variação do nome utilizado na verdade na comunidade. É portanto desejável que estes estudos indiquem o N da amostra e eventualmente as variações nas denominações numa mesma comunidade. Outro cuidado a ser tomado é a averiguação da procedência dos informantes, já que ao migrarem, levam consigo denominações de suas regiões de origem. Desta forma, até nomes estrangeiros podem ter vindo com os imigrantes. Situação assim foi detectada por Maria Martha Argel-de-Oliveira, no trabalho "Alguns nomes populares de aves do sudoeste do Estado de Rondonia, Brasil" Bol. CEO 8:22-27, 1992. Uma estratégia seria entrevistar apenas a população autóctone ou mais antiga da região. A denominação popular das aves tem uma característica interessante a ser considerada, que é o fato de que o conhecimento na maior parte das vezes pode se dar apenas pela linguagem oral, como nas comunidades indígenas, passando de boca em boca e desta forma estando sujeitas às tantas variações e corruptelas que se percebe em torno de alguns nomes. Confusões podem gerar novos nomes, como deve ter sido o caso no uso de “cristudo”, atribuído a Antilophia galeata (Carlos Gussoni, "Avifauna do Campus da Universidade de São Paulo, Município de Pirassununga, Estado de São Paulo" Bol. CEO 15), um possível mal entendido de "topetudo", nome mais antigo e constante na literatura. Outra questão, talvez a mais crucial, é saber se o nome popular indicado é usado mesmo para aquela espécie. Uma estratégia, para aumentar a confiabilidade das informações colhidas, é perguntar ao entrevistado que ave era aquela que estavam visualizando (ou vocalizando, seria também uma alternativa, para os que conhecem bem - entrevistador e entrevistado - as vozes das aves), ou mostrando ilustrações das aves em um guia de campo.