A observação de aves: esporte, lazer, ciência e arte

Luiz Fernando de Andrade Figueiredo

A observação de aves, ou birdwatching, é uma prática que envolve milhões de pessoas em todo o mundo. Nenhum grupo de animal silvestre exerce tanta atração sobre as pessoas, para sua simples contemplação. Certamente algumas qualidades notáveis das aves são responsáveis por isto, como sua capacidade de voar, invejada pelo homem por tanto tempo, seu colorido, muitas vezes impossível de ser retratado numa pintura, já que algumas cores são decorrentes de iridescências devidas à estrutura das penas, seu canto, melodioso e agradável ao ouvido humano. Além disto, a conspicuidade das aves, que podem ser vistas voando a grandes alturas ou sobre ondas em alto mar, nos desertos mais áridos e no inóspito inverno antártico. Ah, certamente, nos jardins e quintais de nossas casas! Mais qualidades? Sim, a inofensividade, sabendo-se que agridem o ser humano somente quando este tenta aproximar-se de ninhos de corujas ou outras aves de rapina: águias, gaviões e falcões, no alto de alguma árvore.

A prática da observação de aves é mais antiga e muito mais intensa em países do hemisfério norte. Estima-se que nos Estados Unidos existam em torno de 70 milhões de pessoas que se dedicam de alguma forma ao birdwatching, um quarto da população do país. Um evento promovido anualmente pela Audubon Society, o Christmas Bird Count  ou Contagem de Aves no Natal, mobiliza milhares de participantes. Neste evento, iniciado em 1900, cada equipe de observadores escolhe um dia no período de uma semana antes a uma semana depois do Natal e neste dia realizam observações exaustivas das aves existentes em determinada localidade. Os dados são compilados e divulgados pela Audubon Society. Outro evento, promovido pela BirdLife International, uma entidade mundial de preservação das aves sediada na Inglaterra, a Contagem Mundial das Aves, ou World Bird Count, realizava-se anualmente no mês de outubro, a partir de 1993 e chegou a mobilizar 200.000 participantes de mais de 90 países. Nos últimos anos eram vistas mais de 5000 espécies de aves, portanto, mais da metade da avifauna conhecida hoje no mundo

Uma prática de observação "caseira" das aves é o wildlife gardening, chamada em nosso meio de "atração de aves" ou "jardim ecológico", que consiste em instalar nos jardins e quintais, comedouros com alimentos para aves, bebedouros com água açucarada para beija-flores, fontes diversas de água, como bacias, pequenos lagos e caixas que servem de locais para as aves fazerem ninhos. Além disto, o plantio de espécies vegetais atrativas para aves. Em países como os Estados Unidos e Inglaterra esta prática motivou o surgimento de um rendoso mercado, estimando-se que os americanos gastem com alimentos para aves em seus jardins milhões de dólares anuais. Mas nem tudo são maravilhas no "Eden", no dizer de um autor norte-americano. Alguns questionamentos foram feitos a esta prática naquele país. Um deles era de que o ajuntamento de aves no "jardim" poderia propiciar a transmissão de doenças entre elas, causando epidemias. Alguns relataram terem encontrado aves mortas próximo de suas casas. Uma investigação demonstrou que aves doentes por outros motivos e velhas, tendiam a ficarem por perto destas fontes de alimento, acabando por morrerem ali. Outra dúvida era de que poleiros e outros pousos metálicos no inverno poderiam congelar os pés das aves. Pesquisas em laboratório demonstraram que isto não acontece. Questionou-se também que as aves se acostumam com a fonte fácil de alimentos e caso esta oferta fosse interrompida abruptamente, as aves poderiam morrer antes de descobrir outras fontes. Em países com invernos rigorosos esta é uma preocupação real. Acredita-se que algumas aves deixam de migrar pelo fato de disporem destas fontes extras de alimento. Recomendam que caso alguém tenha que interromper o fornecimento de alimentos que o faça de forma gradativa, dando tempo para as aves acharem outras fontes. Em nosso meio o naturalista Augusto Ruschi, estudioso de beija-flores e fundador do Museu Mello-Leitão, do Espirito Santo, divulgou a idéia de que bebedouros para beija-flores poderiam causar candidíase na boca destas aves, idéia essa que ganhou grande divulgação junto à população, mas que entretanto não tem ainda comprovação científica, e pode tratar-se de mais um mito sobre as aves. De qualquer forma é prática generalizada a recomendação de que os bebedouros sejam bem lavados com bastante frequência, de preferência diariamente. Fontes de água para as aves deverão ser instaladas com grandes cuidados pelo fato de poderem ser criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela. Outro problema, também evitável, é nas casas onde existem grandes vidraças. Por refletirem o espaço externo, as aves se confundem e colidem com o vidro, acidentando-se e muitas vezes morrendo. A solução encontrada é colar figuras de falcões nestes vidros. Por serem predadores de pássaros menores, estes, ao vê-los, desviam suas rotas de vôo. Neste site pode ser copiada uma figura de falcão para colar em vidraças onde ocorrem colisões de aves.

A observação e reconhecimento das espécies de aves pode ser feita em grande parte pela sua simples visualização e escuta. Prova disto é que muitos moradores das áreas rurais são grandes conhecedores das aves de sua região. Mas o uso de diversos equipamentos poderá ser muito útil. Tudo dependerá do maior ou menor interesse pela observação e aprofundamento em suas técnicas. Há os que se contentam simplesmente em observar aves que frequentam seus jardins e quintais. Outros aproveitam viagens ou passeios em clubes de campo, sítios e fazendas para observarem as aves. Por fim, há aqueles que transformam a observação de aves em verdadeiros hobbies, dedicando grande parte de seu tempo nesta atividade. Alguns se destacam tanto no conhecimento das aves e da ornitologia que podem ser chamados de ornitólogos amadores ou auto-didatas, podendo dar grandes contribuições a esta ciência, mesmo não tendo se formado em biologia ou ciências afins. A intensa participação de leigos na prática da observação de aves levou um ornitólogo norte-americano a definir a ornitologia como "uma curiosa mistura de um passatempo popular com uma ciência precisa".

Entre os equipamentos comumente usados pelos observadores destaca-se naturalmente o binóculo. Permitindo observar a ave de perto, e visualizar detalhes de sua plumagem, o binóculo ajuda extraordinariamente na identificação da espécie que está sendo observada. Ao contrário do que muitos pensam, os melhores binóculos para observação de aves não são os com maiores aumentos. Aumentos muito grandes, acima de 10 ou 12X, dificultam a focalização da ave e ficam trêmulos em nossas mãos. O ideal para esta atividade são binóculos com aumentos entre 7 e 10X. Outras qualidades importantes do binóculo são sua leveza e luminosidade. Para observação de aves que permanecem pousadas a grande distância, não deixando que nos aproximemos delas, como gaviões, o ideal é usar uma luneta com tripé, com aumentos variando de 20 a 60X.

O observador de aves experiente reconhece em campo a maior parte das espécies pela sua vocalização (a vocalização refere-se a todas as expressões vocais da ave, que podem ser cantos, pios, chamados, gritos de alarme, etc). Este recurso é de extrema utilidade no caso de alguns grupos de aves em que as espécies são muito parecidas entre si, por este motivo chamadas de "espécies gêmeas" ou espécies crípticas. Felizmente nestes casos suas vozes costumam ser bastante distintas. Para aprender os cantos das aves são de grande utilidade os CDs de vozes de aves. Os discos com vozes de aves pioneiros no Brasil foram editados por Johan Dalgas Frish. Diversos outros foram posteriormente produzidos.

Equipamentos de som, como gravadores equipados com parábolas (pequenas "antenas parabólicas" portáteis, destinadas a concentrar o som no microfone) ou microfones direcionais (gravam apenas o som proveniente de um ponto, eliminando o som ambiental) também são equipamentos muito utilizados na observação de aves, permitindo gravar vozes para posterior identificação ou realizar a técnica do play-back. Nesta, ao reproduzir a voz da ave ela é "provocada" e aproxima-se da fonte do som, permitindo que seja melhor visualizada ou fotografada. Isto se dá pelo comportamento territorialista de grande número de aves, que não permite intrusos em sua "propriedade".

Também de grande utilidade, principalmente para os principiantes no reconhecimento das espécies, são os guias de campo, que são livros em geral com formato pequeno para poderem ser levados para campo, com desenhos ou fotos de todas as aves de determinada região. Há guias para todo o país, ou para apenas um estado ou mesmo para uma localidade restrita, como o Aves no Campus (EDUSP), que retrata as espécies de aves da Cidade Universitária da USP, em São Paulo. Dois guias de abrangência nacional foram publicados no Brasil: o Aves Brasileiras (Dalgas Ecoltec) e o Todas as Aves do Brasil (Dall).

O observador de aves usa algumas técnicas próprias. Sua vestimenta deve ser discreta, para não espantar as aves. Isto não significa que tenha que fantasiar-se de "Rambo". Basta que seja de algum tom de verde ou marrom, camuflando-se com o ambiente. O andar deve ser cauteloso e silencioso. Descobriu-se que gestos rápidos assustam as aves, ao passo que andando "em câmara lenta" conseguimos nos aproximar bastante delas. Andar direto em direção a uma ave pode assustá-la, mas se andarmos em zig-zag, como se estivéssemos apenas passando perto dela não as assusta tanto. Por questão de segurança e pelo companheirismo, sempre é bom fazer os passeios de observação de aves acompanhado por uma ou algumas pessoas. Mas quanto menor o número o grupo, menor a possibilidade de assustar as aves.

O observador de aves entusiasta poderá levar diversos outros equipamentos, deixando de ser um simples "Rambo" e parecendo-se mais com um astronauta num pouso lunar. Máquina fotográfica, filmadora e tripé. GPS para marcar as coordenadas exatas dos pontos visitados. Trena, paquímetro, pequena balança científica, para fazer medidas de ninhos e ovos e a biometria de aves. Rede de neblina ("mist net"), para a captura de aves, anéis de tamanhos diversos, alicates, etc, para os trabalhos de anilhamento de aves. Cordas para escalar, bota de borracha para vadear riachos e entrar em áreas encharcadas, facão para abrir trilhas, equipamentos de som para fazer play-back. Repelentes de insetos, anestésicos usados em dor de dente para passar em picadas de marimbondos ou pele ofendida por urtiga. Blind, que é uma pequena barraca suficiente apenas para uma ou duas pessoas se esconderem nela e observarem as aves por pequenas aberturas. Observatórios podem ser montados sobre "torres", facilitando a observação de aves do dossel da mata e dos diversos estratos da floresta. Lanternas possantes para passeios noturnos e para surpreender aves pelo reflexo dos olhos e outras menores de reserva, para o caso da maior dar um problema e deixar o observador na escuridão. Fitas coloridas impermeáveis para marcar pontos na mata, relógio com cronômetro, pios para imitar algumas aves. Para carregar tudo isto precisará de uma bolsa e mochila. E, certamente, uma boa "espaçonave".

Alguns horários são melhores para a observação, pelo fato de que as aves estão mais ativas, como ocorre logo nas primeiras horas da manhã e nas últimas horas do dia. Mas muitas espécies estão ativas durante todo o dia e há, naturalmente, as espécies noturnas, na grande maioria corujas e curiangos. Também há épocas do ano melhores para as observações, que são os períodos reprodutivos que se iniciam no final do inverno e se estendem pela primavera e verão. Nesta época as aves estão muito ativas defendendo seus territórios e construindo seus ninhos e em geral cantam muito. No verão é também quando veremos as aves migratórias que vêm da América do Norte, fugindo do inverno boreal. No inverno poderemos ver aves que vêm do sul.

Todo lugar é interessante de ver aves, mas certamente as unidades de conservação são os preferenciais, por serem em geral áreas naturais preservadas. A região de mata atlântica é mundialmente conhecida por sua grande biodiversidade.

A observação de aves é uma atividade que traz diversas vantagens aos que a praticam. Como envolve frequentemente caminhadas por áreas naturais, é uma excelente atividade física. Do mesmo modo, é uma oportunidade de relaxamento e descanso mental, cada vez mais necessários ao homem moderno. O fato de irmos para campo em pequenos grupos é também uma oportunidade de companheirismo e conhecer novas amizades. Por outro lado, é uma atividade que algumas vezes também podemos desenvolver sozinhos, momento propício para muitas reflexões a respeito de nós mesmos. A busca de lugares novos para ver aves nos leva a conhecer paisagens naturais de grande beleza. O contínuo aprendizado e leitura de livros relacionados com as aves e a natureza nos dá um novo campo de conhecimentos, muitas vezes bem diverso de nossa atividade profissional cotidiana. Alguns observadores se dedicam com amor à prática da fotografia de aves e da natureza e também a seu desenho e pintura, transformando-se em grandes artistas nestas artes.

A melhor forma de iniciar um aprendizado na observação de aves é associar-se a alguma entidade de observadores. O contato com pessoas experientes, mesmo que à distância, por meio dos grupos de discussão, por exemplo, abrevia muito o aprendizado.

Mesmo sendo uma atividade extremamente saudável em diversos aspectos, a prática da observação de aves pode oferecer alguns riscos para a saúde. Como essa atividade implica geralmente em viagens e contato com áreas naturais, o observador de aves poderá estar sujeito a diversos agravos de saúde, em especial os relacionados com doenças endêmicas de regiões visitadas. Será então prudente conhecer bem todas as possíveis medidas preventivas e outros cuidados.

Por fim, os que se dedicam ou se dedicarão à observação de aves e a outras práticas de contemplação da biodiversidade, devem se lembrar que toda intervenção que exija captura, coletas ou qualquer tipo de atividade que possa prejudicar os processos biológicos naturais das espécies silvestres na natureza, mesmo que para finalidades científicas, devem estar devidamente autorizados pela autoridade ambiental, em nosso caso o IBAMA.

Mais importante, entretanto, que as exigências legais, é que todo cidadão tenha plena consciência da importância da preservação da biodiversidade e cuide dela, sempre que tiver oportunidade. A American Bird Association dá algumas indicações de como o observador de aves, e qualquer outro contemplador da natureza, deve se comportar:

Evite estressar ou expor as aves ao perigo.

Use com parcimônia técnicas de play-back e outros métodos de atração de aves, principalmente em áreas frequentadas por muitos observadores, ou para atrair espécies ameaçadas de extinção ou raras.

Veja recomendações sobre o adequado uso do play-back.

Mantenha-se sempre a uma distância adequada de ninhos, ninhais, arenas de exibição (onde algumas espécies executam performances próprias de seu comportamento reprodutivo), locais de alimentação. Use sempre que possível um blind, para não perturbar as aves nestes locais.

Use com moderação flash e outras fontes de luz artificial.

Sempre que possível mantenha-se nas estradas e trilhas, evitando adentrar os ambientes naturais.

Zele para que seus companheiros de grupo respeitem os princípios éticos do contato com a natureza, orientando-os a este respeito. Quanto participando de excursões comunique o fato aos coordenadores.

Mais importante que qualquer técnica ou equipamento, é o verdadeiro amor e gosto pela contemplação das aves. Isto foi muito bem descrito por João Guimarães Rosa numa passagem de seu Grande Sertão-Veredas em que Riobaldo, lembrando-se das palavras de Diadorim que um dia lhe disse: 

"é o passarim mais bonito e engraçadinho do rio-abaixo e rio-acima: o que se chama Manoelzinho-da-croa... É preciso olhar para esses com um todo carinho" , pensou assim, concluindo: "até aquela ocasião, nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando por prazer de enfeite. A vida mera deles pássaros em seu começar e descomeçar de vôos e pousação".

VEJA NA ÍNTEGRA O

CODE OF BIRDING ETHICS  DA AMERICAN BIRD ASSOCIATION