Técnicas gerais de observação de aves

 

Luiz Fernando de Andrade Figueiredo

 

Há duas modalidades gerais de observação: a observação de percurso e a observação de espera. Na primeira o observador percorre uma área, parando aqui e ali, enquanto vai fazendo as observações. Na observação de espera ele permanece parado em algum lugar esperando que as aves apareçam.

O sucesso da observação de espera depende da possibilidade do observador manter-se escondido próximo a um local bem frequentado pelas aves. Chamaremos este local de ponto atrativo. Exemplos de pontos atrativos são as fontes de alimento e água, como vegetais que servem de alimento, comedouros artificiais, riachos, o ninho, o local de pouso habitual ou de pouso noturno, etc. O gado é um ponto atrativo já que algumas aves costumam acompanhá-lo. Um bom local para observar aves é seu local de banho. Após se banharem elas voam para algum lugar próximo onde permanecem por algum tempo enxugando-se e cuidando das penas. Eriçam a plumagem e o topete, esticam as asas, abrem a cauda em leque e tudo isto facilita a observação de detalhes úteis na identificação.

Algumas aves, como as de rapina, costumam aglomerar-se próximo a incêndios no campo, com o intuito de comer pequenos mamíferos, répteis ou insetos queimados ou espantados pelo fogo. Outras, como a maria-branca, Xolmis cinerea, e o suiriri, Tyrannus melancholicus, procuram estes lugares para pegar insetos que são levados para o alto pelas correntes de ar quente.

Para encontrar ninhos deve-se prestar atenção em alguns comportamentos das aves:

# aves colhendo materiais para ninho, como paina, fibras de folhas de palmeiras, capins, gravetos e outros, ou carregando materiais.

# aves que fogem quando já estamos muito próximos delas podem ter saído do ninho, especialmente se permanecem por perto ou aproximam-se de nós emitindo gritos de alarme ou executando comportamentos de despistamento, como fingir-se de ferida.

# aves que atacam o observador podem estar protegendo o ninho.

os pios e chamados dos filhotes quando os pais se aproximam denuncia o ninho.

Olhando-se por baixo de árvores e moitas, contra o fundo claro do céu pode-se ver pontos escuros que podem ser ninhos.

Cavidades naturais em troncos de árvores, em barrancos, podem ser locais de ninhos. Entretanto jamais se deve ir enfiando a mão nestes lugares, pois podem ser esconderijos de cobras e outros animais peçonhentos. Utilizar-se dos equipamentos apropriados.

As duas modalidades gerais de observação podem ter usos diversos. A observação de percurso é indicada no levantamento da avifauna de uma área pois percorrendo-se toda a área há maior chance de se observar todas as aves que nela existem. A observação de espera é melhor quando se estuda aspectos da biologia das aves, como a reprodução. Uma observação de espera frequentemente feita e que dá resultados muito valiosos é a de aves que se alimentam de determinada planta. Os estudos de frugivoria (= "alimentar-se de frutos") e de dispersão de sementes por aves, em geral se utilizam desta técnica.

Na observação de percurso o observador deve tomar certas precauções para não espantar as aves. Deve percorrer a área vagarosamente, o que lhe dará maiores chances de localizar as aves pelo canto ou por seus movimentos antes que elas o percebam. Deve também, sempre que possível, manter-se escondido próximo a alguma vegetação mais densa. Os movimentos devem ser cautelosos e vagarosos. As aves têm excelente visão e audição e algumas são muito espantadiças, como os gaviões e outras. Algumas vezes será necessário aproximar-se das aves engatinhando. Deve-se evitar pisar em folhas e galhos secos, que possam fazer barulho. Também não pisar sobre troncos caídos, pois estes podem rolar e nos causar quedas. A conversa deve limitar-se ao mínimo necessário e deve-se falar baixo, de preferência sussurrar. Ao tentar aproximar-se da ave deve-se fazer um percurso em ziguezague, ao invés de caminhar diretamente para ela. É como se fingíssemos não estar interessados nelas. A prática demonstra que isto tem efeito e pelo menos retarda o momento de fuga da ave.

Há situações em que a observação exige o percurso de uma grande distância, podendo ser feita com o uso de cavalo, automóvel ou mesmo avião, como no levantamento de colônias ou aglomerações de aves.

A posição em pé do observador parece espantar mais as aves que outras posições, como agachado, assentado ou reclinado (Barton 1955). Elas também espantam-se menos quando o observador se aproxima montado a cavalo ou em algum veículo, como automóvel, barco motorizado ou canoa. As aves reconhecem a silhueta humana e já se notou que o simples fato de andar-se com a cabeça abaixada "quebra" a silhueta e espanta menos as aves. Para despertar menos atenção das aves é preferível ficar na frente de alguma moita que atrás dela. Ficando na frente, não há necessidade de movimento e nossa silhueta será quebrada pelo contorno da moita. Ficando-se atrás, a silhueta de nossa cabeça e tronco ficará bem visível por sobre a moita, principalmente quando nos movimentarmos.

 

Barton, R. (1955) How to watch birds. McGraw-Hill Book Company, New York .